Parou atrás dos carros, olhou no relógio e era 18:17, quarta-feira. Estava no rush, como sempre pegava, naquela rua estreita de duas faixas, no centro da cidade, sentido bairro. Olhou para os lados, carros, gente nas ruas, olhou para o céu, era escuro mas o tom cinzento predominante daquela cidade ainda persistia. No rádio nada que prestava, dos seus discos estava cansado, então só restava esperar. Nos abres e fecha dos sinaleiros a frente um pouco de ação. Repensava o que devia fazer no dia seguinte, o que queria fazer naquela noite, no fim de semana. Mal se notava que o tempo tinha passado, já estava pensando em outra coisa, futebol, xampu ou um novo carro que lançaram no mercado. Mais um ciclo do sinaleiro, mas um pouco de ação.
Era um cara normal, ou medíocre como costuva dizer. Tinha 27 anos, um emprego, uma esposa, um apartamento próprio, um carro de sete anos. Não tinha filhos, dinheiro no banco, dívidas ou aventuras no currículo. Não era de se arriscar. Não que fosse do tipo de desencorajar os outros, mas não via em si, coragem para um grande desafio. Era pequeno, normal, medíocre. Não tinha vivido mais do que o necessário para se considerar adulto, nem menos para saber como lidar com o inesperado.
Mais um ciclo no sinaleiro, mais uma ridícula porção de ação. Faltavam duas quadras para a esquina do posto, onde os carros finalmente se dispersavam, e se podia pisar no acelerador. Bastaria de embreagem e inclinação da rua. Abaixou o vidro elétrico e sentiu imediatamente o cheiro do final de tarde de uma cidade quase grande. Claro que não é preciso descrever esse cheiro, como muita coisa aqui não é preciso descrever. Só basta a menção, para que se possa compreender como aquele dia era normal e corriqueiro, medíocre. Mais um ciclo de sinais, e ele parou na esquina, falta pouco agora - ele pensou. Via os carros da esquerda para direita, pessoas entretetidas na sua viagem, no seu pensamento, eram outros ele. Outras vidas mas a mesma casca, por fora eram todos iguais.
Havia dois anos e alguns meses que tinha casado. Mais alguns meses, três anos que vivia no norte da cidade com sua esposa. Juntaram todo seu dinheiro e com a ajuda dos pais compraram um apartamento de um quarto. Pagavam desde então, todos os meses, o empréstimo. Não se preocupavam muito. Aquele pagamento era simbólico, só seriva para que achassem que não estavam vivendo de favor. Estranho se sentir estranho em sua casa. De fato, relutavam ainda de chamar de lar.
O sinal abriu, percorreu mais um pouco, quando parou estava a apenas dois carros da liberdade. Começou naquele instante a respirar. Ligou o som, preparando-se para seu vôo, para pisar o mais fundo que velocidade máxima permitida deixasse, e num momento de selvageria sentir-se finalmente vivo. A agressividade tola das cidades já o havia contaminado. O tempo agora acelerava, e já mais rápido o sinal abriu novamente, subiu o giro do motor, mas não pode prosseguir. Algum motorista parou no cruzamento e impediu sua fila de andar. Imediatemente as buzinas começaram a agravar o ocorrido, aquela sensação de selvageria tomou agora outro tom. Os carros atrás começavam a trocar de fila, impedidindo que ele fizesse o mesmo. Bem na sua vez. E quando o carro desobstruiu a via, já era tarde. Ele estava no sinal vermelho. O primeiro da fila dos injustiçados.
Abaixou mais o vidro, desligou a música. Mas não era apenas ela que abaixava. Tudo parava, o tempo suspenso como em corda bamba, no momento do último passo. De repente sentiu um vulto na sua janela, quando olhou só viu os braços deixando uma trouxa cair no seu colo. Sentiu o peso, sentiu medo, sentiu pânico. Não sabia se olhava para quem deixava a trouxa, ou para a própria trouxa. Mas já era tarde, aquele alguém fugira, dobrara a esquina. E então foi acordado pelas buzinas, o tempo voltava a passar. Olhou para aquela trouxa, sentiu aquele peso, atônito não pensou em outra coisa senão relevar o que estava mergulhado naquele pano, foi desfolhando e com uma surpresa estranha descobriu uma criança recém-nascida.
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